• Stephanie Kohn

Como evitar o colapso #news 7

Atualizado: 21 de set. de 2021

Um olhar sobre o futuro do Planeta


Está em todos os lugares: o novo relatório do IPCC (Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas) revelou que não temos mais tanto tempo quanto imaginávamos. O documento fornece novas estimativas das chances de ultrapassar o nível de aquecimento global de 1,5 °C nas próximas décadas e constata que, a menos que haja reduções imediatas, rápidas e em grande escala nas emissões de gases de efeito estufa (GEE), o aquecimento limitado a cerca de 1,5 ° C ou mesmo 2 ° C estará fora de alcance. O relatório mostra que as emissões de GEE das atividades humanas são responsáveis ​​por aproximadamente 1,1 ° C de aquecimento desde 1850-1900, e conclui que, em média, nos próximos 20 anos, a temperatura global deverá atingir ou ultrapassar 1,5 ° C de aquecimento - um limiar considerado perigoso. Com essa elevação, haverá aumento das ondas de calor, estações quentes mais longas e estações frias mais curtas. A 2 °C de aquecimento global, os extremos de calor atingiriam mais frequentemente os limites de tolerância críticos para a agricultura e saúde, revela o documento. "Agora temos uma imagem muito mais clara do clima do passado, presente e futuro, o que é essencial para entender para onde estamos indo, o que pode ser feito e como podemos nos preparar", disse Valérie Masson-Delmotte do Grupo de Trabalho I do IPCC no material de divulgação. O relatório propõe vários cenários de emissões durante este século. Em todos eles se espera que essa barreira seja superada nos próximos 20 anos, devido aos GEE que a humanidade emitiu até agora e que permanecem na atmosfera durante décadas. No cenário de emissões mais otimista, ainda é possível limitar o aumento da temperatura em 1,5 ºC até o final deste século, embora possa haver uma superação temporária desse limite nos próximos anos. Mas, a partir de 2050, as coisas podem piorar bem. A expectativa é que só será possível manter o nível de aquecimento no nível desejável a partir de reduções profundas nas emissões de GEE nas próximas décadas. Se não houver uma mudança radical e as emissões continuarem crescendo no mesmo ritmo, o relatório estima que até o final deste século chegaríamos a 4,4 ºC, algo que multiplicaria a intensidade e a frequência dos fenômenos naturais extremos (veja abaixo). De acordo com os cientistas, a última vez que o Planeta Terra chegou a um nível de aquecimento acima dos 2,5 ºC foi há três milhões de anos, quando o ser humano sequer existia. Para o secretário-geral da ONU, António Guterres, o relatório é "um código vermelho para a humanidade e o aquecimento global está afetando todas as regiões da Terra, com muitas mudanças se tornando irreversíveis". Hoje, mesmo que todas as nações do mundo interrompessem a emissão dos gases que aquecem o planeta, os efeitos do atual aquecimento (1,1 ºC) perdurariam por mais mil anos. Portanto, agora, é imprescindível que a Terra se mantenha abaixo do limite considerado seguro. No cenário ideal – aquele em que fazemos de tudo para cortar as emissões de GEE –, a temperatura global diminuiria 0,1 ºC entre 2080 e 2100, ou seja, ficaríamos 1,4 ºC mais quentes em comparação ao início do século 20, segundo o estudo. No pior cenário, se o aquecimento continuar inabalável, a Terra chegaria ao fim deste século 5,7 ºC mais quente do que na era pré-industrial e com consequências catastróficas. Para se ter uma ideia, o nível do mar subiria de 2 a 3 metros em 2300, mesmo se a temperatura for mantida abaixo de 2 ºC, e poderia chegar a 5 a 7 metros ou mais se o aquecimento continuar inabalável. O futuro mais pessimista, porém, pode ser evitado se a humanidade agir rapidamente. Há esperança de que um corte drástico e imediato nas emissões de GEE possa estabilizar o aumento das temperaturas. "O relatório indica que estamos atrasados. Já deveríamos estar descarbonizando a economia global, mas a trajetória de emissões continua ascendente, o que reduz a janela de oportunidade e nos coloca numa rota de choques climáticos", comentou Gustavo Pinheiro, Coordenador do Portfólio de Economia de Baixo Carbono do Instituto Clima e Sociedade em entrevista ao Economeaning. Na visão de Gustavo, isso não significa, no entanto, que os esforços em curso ou em planejamento são em vão, ao contrário. Para ele, empresas e governos precisam de mais ambição em seus planos e senso de urgência na implementação de redução de emissões. "Não basta que governos e empresas anunciem compromissos para o futuro, é preciso que iniciem sua jornada de descarbonização o quanto antes", completou. Atualmente o Acordo de Paris, assinado em 2015, fixou como objetivo principal reduzir as emissões para que o aumento da temperatura global ficasse entre 1,5 ºC e 2 ºC acima da era pré-industrial. Mas, de acordo com a climatologista argentina Carolina Vera, uma das vice-presidentas do grupo de trabalho I do IPCC, para cumprir o Acordo de Paris será preciso também recorrer à captura do dióxido de carbono que já está na atmosfera, através de sorvedouros naturais, como as florestas, ou de soluções tecnológicas. A captura através desses processos naturais é limitada, por isso não pode ser a principal solução. Leia aqui nossa newsletter sobre a corrida pela descarbonização.

Consequências

Algumas mudanças são irreversíveis – mesmo nos cenários de emissões mais baixas. O aquecimento que já ocorreu gerou mudanças que vão persistir mesmo que as emissões parem e as temperaturas se estabilizem, relata o estudo. Os mantos de gelo, por exemplo, continuarão derretendo por centenas a milhares de anos, de acordo com o relatório, o que fará com que o nível do mar suba bem e permaneça mais alto por milênios. Os impactos climáticos já são graves em todas as regiões do planeta, ainda abaixo do limite considerado mais seguro, e devem piorar se chegarmos a 2 ºC. Veja abaixo:


Esse tal de IPCC


O Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas tem especialistas vinculados à ONU que há mais de três décadas estabelece as bases científicas sobre a mudança climática. O estudo divulgado na semana passada, que ocorreu quatorze anos após o Prêmio Nobel da Paz, foi elaborado com a participação de 234 especialistas de 66 países. Os cientistas revisaram mais de 14 mil artigos e referências publicadas até agora para montar sua síntese dos efeitos físicos já decorridos do aquecimento e para prever possíveis cenários para as próximas décadas. Para os negacionistas, o melhor argumento é o tempo. Os 30 anos de avanços no consenso científico sobre as causas e os efeitos do aquecimento da Terra servem como prova de solidez. Se o aquecimento global fosse uma ilusão coletiva, essas décadas de literatura científica acumuladas mostrariam previsões que não se concretizaram, mas infelizmente é justamente o contrário. O que aconteceu na maior parte dos casos, na verdade, foi que o IPCC apresentou visões mais conservadoras e, portanto, subestimou as previsões. Em 1990, por exemplo, o painel dizia que havia um aquecimento global detectável, mas que ainda era condizente com a variabilidade natural do clima da Terra. Ele também previa que apenas em dez anos seria possível identificar um aquecimento observável por interferência humana. Não passou muitos anos e em 1995, no segundo relatório de avaliação, o IPCC já identificava a influência humana “discernível” no clima. Na ocasião, a expressão causou fúria na indústria, que acusou o painel de especialistas de “desonestidade” e motivou uma crise que quase pôs a perder o Protocolo de Kyoto, o tratado climático que seria adotado dois anos depois, e que antecedeu o Acordo de Paris. Em 2007, a influência humana como fator predominante no aquecimento global já era “muito provável” (90% de chance ou mais), segundo estatísticas do IPCC. Em 2013, no quinto relatório de avaliação, a influência humana era considerada “extremamente provável” (95% de chance ou mais) e, então, no sexto relatório passou a ser qualificada como “inequívoca”. Segundo o novo relatório, atividades humanas como a queima de combustíveis fósseis e o desmatamento provavelmente causaram nada menos que 98% do aquecimento global observado.

Fator humano


Fato é que, apesar das medidas apresentadas nos acordos de Kyoto e Paris, estamos atrasados. Já é consenso entre os cientistas que vivemos no Antropoceno (termo cunhado pelo Nobel de Química (1995) Paul Crutzen), uma época de dominação humana que representa um novo período da história do Planeta, em que nos tornamos a força que impulsiona a degradação ambiental e o vetor de ações que aceleram uma provável catástrofe ecológica. O nosso progresso demoeconômico tem gerado consequências negativas para o meio ambiente e nós sabemos. Ainda assim, há quem não tenha consciência e/ou conhecimento disso e viva em estado de negação ou alienação. Uma pesquisa realizada pela Ipsos em julho de 2021 revelou que o aquecimento global não está nem entre as cinco primeiras preocupações mundiais. O estudo mostrou que, ao redor das 28 nações pesquisadas, apenas 14% da população considera as questões climáticas como um problema prioritário atualmente, colocando o tema em nono lugar no ranking. As maiores preocupações mundiais são: coronavírus (1º), desemprego (2º), pobreza e desigualdade social (3º), corrupção financeira e política (4º) e crime e violência (5º). "Nossas decisões de alocação de capital, de consumo, até mesmo decisões pessoais têm impacto. O mercado não é uma entidade mítica, é um conjunto de atores que tomam decisões", comentou Gustavo. "Todos nós somos parte do coletivo da humanidade, então todas as nossas decisões impactam o futuro do clima do planeta", completou. Na visão do psicanalista, filósofo e editor Eduardo Guimarães isso ocorre porque as questões climáticas são sempre postas para o futuro, ou seja, afetam gerações vindouras e não a atual. "Quando pensamos no desemprego é algo que afeta imediatamente quem estava empregado e não está mais, assim como os demais pontos de preocupação. Por mais que o relatório do IPCC tenha sido amplamente divulgado, as questões revelam cenários futuros e afetam fortemente as próximas gerações. No fim, trata-se do cuidado que a sociedade atual tem com a infância e o quanto ela está disposta a sacrificar o agora pelas gerações futuras", analisou em entrevista ao Economeaning. Outro ponto importante apontado pelo psicanalista é que o individualismo exacerbado na atualidade pode ser um tiro no pé. "Isso nos leva à hiper responsabilização e ao mesmo tempo nos conduz à impotência. Se todas as mazelas do indivíduo são de sua responsabilidade, ao mesmo tempo que ele pode se sentir envaidecido pelas suas conquistas, também pode se sentir altamente impotente e incapaz de promover transformações", disse. Na visão de Eduardo, as questões ambientais são ações coletivas e somente grandes movimentos podem promover engajamento individual. "As corporações, as empresas privadas e os estados devem ser mobilizados. É pouco provável que enxerguemos transformações de indivíduo a indivíduo. Somente o coletivo pode promover engajamento", opinou. O coordenador do Instituto Clima e Sociedade compartilha desse ponto de vista. "A questão é a escala. Mudanças de políticas públicas, adoção de medidas por grandes empresas tem impacto em grande escala. E medidas regulatórias e legais têm o potencial de estabelecer novas linhas de base para comportamentos e emissões decorrentes", ressaltou. Para Gustavo, se mais e mais indivíduos assumem novos comportamentos, empresas e governos também se adaptam. Sendo assim, as pessoas têm poder para influenciar governos. "A demanda por produtos e serviços carbono zero também influencia as empresas a fazerem a transição. E decisões de investimento têm um efeito enorme sobre a alocação de capital na economia. A agenda ESG tem sua origem na preocupação dos indivíduos, na existência de valores na sociedade. Ela desafia o mito de que o mercado é um ser amoral. Conforme mais atores do mercado incorporam valores morais e alinham estes valores com o retorno de investimento, passamos a demandar das empresas investidas comportamentos éticos", explicou. Já no âmbito do indivíduo, segundo Gustavo, as principais medidas para frear a mudança climática são: ter um filho a menos, viver sem usar automóveis, evitar viagens de avião a querosene e se alimentar de dietas baseadas em plantas. Ou seja, todas decisões de cunho pessoal. "Essas mudanças, se implementadas por todos, contribuirão para limitarmos os impactos do aquecimento global. O problema é que atualmente não estamos implementando estas medidas. A humanidade continua seguindo um caminho perigoso. E é para o tamanho do perigo que o relatório do IPCC nos alerta", concluiu. De forma prática algumas outras medidas, impulsionadas por diversos setores, também podem contribuir para frear o aquecimento global. Especialistas em mudanças climáticas e preservação do ambiente ouvidos pelo Estadão listaram seis delas, das mais simples e efetivas às mais inovadoras formas de 'sequestro' de carbono da atmosfera: manter as florestas naturais de pé; promover o plantio direto e o cultivo mínimo florestal; evoluir o mercado de crédito de carbono; projetos de injeção de CO2 no subsolo e cultivo de algas marinhas para capturar CO2. Gustavo ainda reforça que o fim das fontes fósseis de energia (carvão, petróleo e gás) é a condição para limitar o aquecimento global e que hoje não há barreiras tecnológicas à transição para 100% de energias renováveis a não ser a pressão do setor. "Ao longo dos últimos 30 anos observamos fontes como eólica e solar emergirem da alcunha de "alternativas", e são hoje as opções mais econômicas de geração de energia elétrica", comentou. "As energias fósseis sobrevivem devido ao pesado lobby do setor e enormes volumes de subsídios que, no Brasil, são da ordem de 1,3% do PIB, na casa dos 100 bilhões de reais por ano", revelou.

Brasil como peça-chave

Por falar em Brasil, o país é visto como uma peça chave, por diversos motivos, especialmente pela Amazônia. Florestas são sistemas muito importantes para a regulação do clima. Ao produzirem a evaporação em grande escala, e as chuvas que decorrem deste processo, elas funcionam como um sistema de ar condicionado da atmosfera, reduzindo o calor acumulado . Fora isso, o país tem uma grande oportunidade à frente, pois possui um dos maiores potenciais de geração eólica e solar do planeta, possibilitando a geração de energia renovável abundante e barata. No entanto, é preciso uma rápida reformulação da regulação do setor elétrico, que hoje limita a expansão desta alternativa. "Precisamos valorizar o estoque de água nos reservatórios das hidrelétricas que devem operar como bateria do sistema elétrico, enquanto a ampliação de parques eólicos e solares deve ser viabilizada por leilões de contratação de energia para o mercado regulado", comentou Gustavo. "A iniciativa privada tem liderado investimentos em renováveis. Há 66 GW - o equivalente a 4 Usinas Hidrelétricas de Itaipú - de nova capacidade de geração eólica e solar registrada junto à ANEEL que poderiam ser contratados para entrar em operação nos próximos anos. Uma grande oportunidade de garantir resiliência ao sistema elétrico, reduzir a volatilidade das tarifas de energia, alavancar investimentos e gerar muitos empregos verdes", acrescentou. Economias avançadas têm investido pesado no processo de transição, ampliando a capacidade de geração solar e eólica, desenvolvendo sistemas baseados em outras fontes renováveis como geotérmica em escala, e financiando pesquisa e desenvolvimento em tecnologias em armazenamento de energia, como baterias e hidrogênio, que substituirão o uso de combustíveis fósseis. Por outro lado, o desmatamento é o calcanhar de aquiles do Brasil, sendo que as queimadas ilegais são responsáveis pela maior parte das emissões locais. A pecuária é também uma grande fonte de emissão de GEE (72% em 2019), com destaque para as emissões de metano decorrente da ruminação (fermentação entérica) dos bovinos. "O Brasil, assim como outros países que não transicionarem para uma economia carbono zero, estarão fora da corrida climática, perdendo competitividade econômica em um mundo onde a descarbonização será regra, não exceção. Será o equivalente a não participar da revolução industrial. A revolução industrial deste século é pautada pela descarbonização, digitalização e distribuição da geração de energia", concluiu Gustavo.

Novos temas


De forma geral, o padrão de consumo no mundo deve mudar para que o Planeta sobreviva – do consumo de alimentos a produtos e serviços. Já não é mais viável comprar em excesso ou de empresas ambientalmente irresponsáveis, e qualquer investimento – em produtos, serviços ou ativos – deve ser feito de forma consciente, levando em consideração os fatores ambientais. Algumas das mudanças sociais propostas por especialistas são baseadas em conceitos que, aos poucos, ganham força no Brasil e no mundo. Todos eles fazem parte, inclusive, da linha editorial do Economeaning e são abordados em nossos conteúdos, como o Capitalismo Consciente, os Investimentos Responsáveis, a Economia Circular, os Negócios de Impacto e o ESG. Ao longo dos próximos dias, vamos abordar mais profundamente cada um deles. Não deixe de acompanhar, compartilhar e colocar em prática ideias que podem fazer a diferença em nosso Planeta. Até lá.


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