• Daniel Poli

Qual a ideia de ESG do mundo real? #coluna

Uma reflexão sobre crenças e incertezas


Talvez um dos maiores combustíveis para a humanidade seja sua crença. A crença em qualquer coisa determina a execução de tudo o que julgamos possível. Faz também com que o impossível se torne tão real quanto o factual. Não falo aqui de crença com um sentido estrito religioso, embora seja aplicável e notória sua participação no conjunto do desenho que formam as sociedades, culturas, regras e valores pelos quais vivemos e acreditamos. No sentido literal a crença em algo permite que projetemos uma realidade imaginada que moldam nossas atitudes, assim como a sensação do frio nos faz buscar por um casaco.


Já ouvimos diversas vezes a expressão “os números não mentem”, mas o que sabemos é que eles podem nos contar a história que queremos ouvir. Construir nossas verdades, de acordo com a nossa narrativa, é tão natural quanto acreditar apenas nas histórias que nos cativam. A verdade, pois, é tão fugaz quanto um deus sem adorador. Crer é mais importante do que ser, neste caso.


Quando nos deparamos diante de fatos que contradizem nossas crenças refutamos em crer que essa novidade possa ser uma verdade mais coerente do que a história que já trazíamos à mesa com a certeza que conhecíamos. Nos relacionamos emocionalmente com nossas histórias e nos sentimos violados quando enfrentamos novas verdades que possam deslegitimar nossas crenças antigas.


Quando o mundo recentemente recebeu a nova verdade de que uma pandemia nos afligiria, relutamos em aceitar os novos fatos. Esperamos, como sociedade, além de um limite da racionalidade para reconhecer o que os números já nos mostravam, e para crer em uma nova verdade. Não nos enganemos, já sabíamos o que era uma pandemia e tínhamos referências suficientes para crer no potencial destrutivo e mortífero que uma crise sanitária dessas proporções causaria. A história já havia nos contado os resultados decorrentes de uma crise dessa magnitude.


Então por que resistimos em aceitar uma nova crença? Por que diante de novos fatos relutamos em abandonar crenças antigas?


Este texto não será sobre os efeitos da pandemia, nem tampouco uma análise sobre as políticas públicas adotadas durante a maior crise sanitária de nosso tempo. Também não abordarei a perspectiva do novo mundo que se desnuda e se transforma em alta velocidade, catalisado de modo circunstancial por essa tragédia. Quero, nos próximos parágrafos, trazer você, leitor, para uma reflexão sobre como refletimos sobre os problemas que enfrentamos, e como negamos o que está diante de nós, como as emergências ambientais, sociais e climática, e todos os aspectos que se desdobram em nossas vidas a partir desses termos. Gostaria também de explorar um pouco sobre a importância da linguagem e dos significados. É possível dar significado a algo cuja linguagem não comunica o que se pretende ser? Qual o significado que damos ao termo ESG? Seria esta uma nova linguagem que nos promete dizer sobre algo novo, ou perigosamente estamos nos concentrando no léxico reescrito de antigos conceitos esvaziados de novos significados?


Para iniciar, gostaria de divagar sobre verdades implícitas e explícitas. Usarei o carro como instrumento ilustrativo, não como viés da reflexão trazida em meu último texto, que você pode acompanhar aqui, mas como um lugar de entendimento comum à grande maioria. Pois bem, afinal o que é um carro?


Se olharmos por realidades explícitas, um carro é um conjunto de materiais metálicos, plásticos e até orgânicos, como couro e algodão, organizados em um arranjo pensado e trabalhado ao longo de décadas de evolução tecnológica e que hoje agrega tecnologias avançadíssimas de segurança, controle, potência, durabilidade, eficiência, dentre outras. Um carro pode ser explicitamente categorizado como um bem móvel, dotado de valor comercial, e capaz de realizar deslocamentos de maneira autônoma e guiada com o uso de uma fonte de energia motriz. A tração capaz de realizar o trabalho, ou seja, o deslocamento, associada a sua capacidade de carga, definem em longa maneira os fatores explícitos do conjunto carro, mas não todo seu conjunto de valores.


Um carro não é medido apenas por suas capacidades e características explícitas. Um carro pode ser uma fonte de desejo e prazer para alguns. Pode remeter a histórias e lembranças para outros. Um carro pode ser visto objetivamente como uma fonte de poluição ou subjetivamente como um fator de liberdade. Os elementos implícitos são muitos mais vastos e por vezes demasiadamente particulares e intangíveis para se enumerar.


Os fatores explícitos e implícitos de um carro não estão ligados simplesmente aos fatos e inferências que podemos atribuir ao objeto. As crenças e significados que cada um dá ao carro são determinantes para mensurar seu valor. Claro, um valor financeiro, mas não apenas este. Um carro possui significados pragmáticos que nossa linguagem acordou em batizar, mas possui também um arsenal maior de significados emocionais que não se definem sem um conjunto de crenças individuais.


Quando olhamos para os mercados, os negócios e a sociedade nos deparamos com um dilema similar. O que significa valor? De quais verdades devemos nos dotar para assumir significados e linguagens que nos permitam seguir em uma direção comum? Quais acordos precisamos traçar de maneira pragmática e quais devemos nos munir de crenças e valores emocionais?


A consolidação do termo ESG, embora recente no imaginário e discussões do mercado remete a 2004, quando foi primeiramente cunhado em publicação do Banco Mundial em conjunto com o Pacto Global da ONU, descende diretamente dos termos Desenvolvimento Sustentável, definido no relatório de Brundtland de 1987, e posteriormente pelo Triple Bottom line, ou tripé da sustentabilidade, que organizou a geração de valor e impacto dos negócios em aspectos sociais, ambientais e econômicos, conforme definido por John Elkington em 1990.


De lá para cá o que se viu foi uma avalanche de ideias e conceitos que se cruzam e que buscam definir com clareza o que está sendo dito. Este é um cenário muito similar à construção e desconstrução que o termo sustentabilidade passou nas últimas décadas. Muitos de meus colegas que atuam neste meio ficam divididos quanto a esse novo movimento.


Alguns argumentam que é importante surfar a onda, e, se o mercado financeiro finalmente acordou para considerar as externalidades intangíveis dos negócios na definição de seus modelos de investimento, geração e avaliação de valor de companhias, deveríamos aproveitar e potencializar essa direção ao máximo. Se quem detém o capital, ou seja, quem investe e determina os contornos da economia, entendeu que a geração de valor dos negócios não é apenas financeira, mas também reside em constituir o valor implícito e explícito nas relações sociais e com os ecossistemas naturais, deveríamos valorizar e estimular o direcionamento de investimentos que têm sido feitos; e foram quase 500 bilhões de dólares em título ESG em 2020. Quando os donos do capital buscam equilibrar a interação entre os aspectos de valor externo e interno dos negócios e reconhecem que existem outros stakeholders para além do acionista a serem atendidos, devemos aproveitar e tendencionar a curva para construção de mais legados do que passivos.


Por outro lado, outros alertam para a sensação de que estamos caminhando por caminhos já percorridos. Nele há um letreiro que pisca com cores chamativas em luzes neon, conta histórias com narrativas importantes e utiliza com maestria os números imponentes. Apresenta uma retórica coerente e agradável e é capaz de preencher editoriais de maneira positiva, mas que pouco dizem ou trazem de novidade sobre mudanças estruturais no conjunto de crenças que mantém negócios privilegiando o resultado financeiro, com uma perspectiva de crescimento perpétuo, em detrimento da geração de valor social e ambiental, e que tem pouco interesse ou apetite para mudar fundamentos do modelo de negócio e da sociedade de consumo.


Para esta alegação, poderíamos colocar os números de investimento em títulos ESG em perspectiva comparativa ao tamanho da economia global real, ou seja, da soma do PIB de todos os países, que superou os 85 trilhões de dólares em 2020. Com a preocupação de não criar narrativas distorcidas, criando relações diretas de numerologia sem nenhuma base ou rigor científico, ainda assim podemos considerar que a participação de títulos ESG neste contexto é menor do que 1% da economia global total. Essa alegação é tão válida quanto a que diz que não são desprezíveis os fluxos de investimento sendo realizados para esta modalidade – ESG – se olharmos para o crescimento exponencial em números absolutos na última década.


Veja bem, iniciei este texto explorando o fato de que um dos maiores atributos sociais e que determinam a condição humana de convivência e evolução em comunidades é nossa capacidade de construir bases de crenças comuns. Por outro lado, um dos maiores obstáculos a mudanças é justamente o receio de se alterar o conjunto de crenças e valores previamente acordados e determinados. Mesmo diante de novos fatos, resistimos à mudança porque não navegamos bem sobre incertezas. E mudanças são recheadas de incertezas.


Assim Nicholas Taleb, em seu livro a lógica do cisne negro, apresenta algumas de suas ideias sobre a ciência da incerteza, e que aqui reproduzo em minhas palavras e interpretação. Comumente interpretamos a incerteza como um conjunto de fatores do qual não dotamos o saber total, ou seja, em que a certeza teórica ou empírica não pode ser precisada ou conhecida. Ela é simplesmente insuficiente. Por uma lógica indutiva concluiríamos que o oposto da incerteza seria, então, o conhecimento, ou, em outras palavras, o saber. A incerteza, portanto, denotaria o não saber, ou a ausência de sabedoria, que poderia em alguma medida ser interpretada como uma ignorância a ser aprendida. Contudo, em sua interpretação sobre esses supostos opostos, Taleb argumenta que a incerteza não deveria ser interpretada como a falta de sabedoria, que poderia ser adquirida, mas sim como o espaço do não conhecimento. Ou seja, a tentativa de se controlar a incerteza seria um exercício de imaginação infrutífero e parcial, pois, no campo da incerteza, não há um conhecimento que possa ser aprendido a priori, sendo possível apenas a constatação a posteriori sobre o relato de fatos ocorridos, ou seja quando não mais há incertezas.


Mas o que essa longa reflexão contribui para nossa interpretação sobre o movimento ESG e o futuro dos negócios?


Bem, se construímos a nossa sociedade e os subsistemas que garantem a manutenção dos negócios e das relações com um conjunto de crenças e valores estabelecidos, e, quando diante de novos fatos, encontramos diversos dilemas éticos e existenciais que trazemos em nossa bagagem, precisamos entender o papel que a incerteza tem sobre o modo como tomamos as decisões. Se dilemas que conflitam temas como as formas de criação e distribuição de riqueza, a pressão e a relação da sociedade com o meio ambiente, e ainda, se estamos diante do reconhecimento da necessidade de unificar o papel dos negócios na construção de bases para um novo modo de relacionar-se com tudo isso, precisamos enfrentar qual a ideia de ESG do mundo real. Devemos lidar com a fome, o desemprego, a escravidão moderna, a poluição de rios, lagos e oceanos, ou a massiva extinção de espécies, como uma jornada de confronto com as crenças que trazemos e, portanto, um mergulho no campo das incertezas.


Tomar risco é a forma mais habitual com que o mercado e seus principais atores interpretam esse dilema. É comum a adoção do binômio risco-retorno como um bordão pragmático dessa teoria. “Não há retorno sem risco”, “quanto maior o risco maior o potencial de retorno”, entre outras frases que populam o imaginário tanto de executivos antigos quanto novos. Mais recentemente, na tentativa de trazer o ESG para a equação tem se falado em risco-retorno-impacto, em que o terceiro termo busca equilibrar a equação como fator ponderador sobre impactos positivos e negativos para o coletivo social e ambiental. Mas fato é que quando impomos fatores metrificáveis ou modeláveis como imperativos para a decisão optamos por operar dentro do espaço do conhecimento. Seja o conhecimento que temos ou que ainda não temos, mas que existe dentro do espaço do saber. O dilema permanece sobre a incerteza, que opera no espaço do não conhecimento, ou seja, aquilo que não pode ser conhecido.


Ótimo, se operamos dentro de um espaço do saber, e temos pouca disposição para aceitar a incerteza, ou o que não pode ser conhecido, como então mudar e evoluir? Se precisamos modificar o modus operandi, que forças precisamos nos dotar para quebrar as inércias evolutivas e de fato entrarmos em campos transformacionais?


Não vejo aqui uma receita, nem ao menos um ensaio sobre a solução. O que consigo vislumbrar é que precisamos confrontar as firmezas e crenças que trazemos e aceitar a existência do campo das incertezas. Saltos e revoluções acontecem sem que se estabeleçam planos prévios elaborados, mas sim como resultante das forças da conjuntura que aceitamos mergulhar.


Termino trazendo um último elemento para essa discussão que é o conceito de tendência. O que seria uma tendência? Seria ela um caminho seguro e a imagem mais provável do futuro, percebida ainda em sua infância? Seria um fardo ou uma sentença quando em aspectos negativos e uma esperança ou alívio em caso de aspectos positivos?


O que sabemos de tendência é que elas são as observações do presente sobre o que vêm acontecendo desde um passado recente e que tende a determinar possibilidades de cenários para o futuro.


Enxergamos, por exemplo, as tendências sobre os efeitos das mudanças climáticas ou sobre os impactos do aumento da desigualdade socioeconômica, ou no acesso a direitos. Observamos a tendência de um mundo mais digital e com grandes desafios sobre o emprego e a fonte de renda das pessoas em todo mundo. Vemos, por outro lado, uma tendência para aumento na geração e uso de energia renovável e limpa, pela valorização da diversidade e mais solidariedade.


É clara a constatação de que a tendência sobre as perspectivas de uma nova economia, mais sustentável e biocentrada, coloque no centro de seu modelo os questionamentos sobre nossas crenças em valores sociais e ambientais, sendo essas a força motriz para um futuro diferente.


Para isso é preciso aceitarmos que as tendências nos mostram futuros possíveis, com base no que vemos hoje e conhecemos do passado, mas que exigem que, para projetar novos caminhos, será preciso confrontar nossas crenças e aceitar as incertezas em nossas escolhas.


*Daniel Poli possui mais de 10 anos de experiência em Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Gestão de Riscos e Planejamento Estratégico. Realizou projetos em múltiplos setores da econômica, tais como o Financeiro, Minas e Energia, Varejo, Logística, entre outros. Atuou em múltiplas geografias nas Américas, Europa e Ásia. Passou por companhias como EY e Nexa Resources, e atualmente conduz a estratégia de sustentabilidade da Cielo. É formado em Engenharia Ambiental, Engenharia Civil e mestrando em Empreendedorismo.


**O texto não reflete necessariamente as opiniões do Economeaning.