• Daniel Poli

Até quando vamos dirigir com o estepe?#coluna

Atualizado: Out 18

Os aspectos da “verdade inconveniente" das mudanças climáticas


Em 1962, Rachel Carson, bióloga americana, eternizava em um de seus livros uma de suas maiores marcas no mundo: a denúncia sobre o uso indiscriminado de pesticidas na produção agrícola, em especial o DDT, e seu severo impacto ao meio ambiente natural, o que à época já levava a resultados desastrosos para os ecossistemas e suas espécies, e em especial a uma consequente alta na mortandade de aves. Deste efeito, batizou seu livro: Primavera Silenciosa.


Primavera Silenciosa é reconhecido como um marco histórico e fundacional para o movimento ambientalista, que levou gradativamente à criação de diversas agências, regulamentações, organizações e pactos, locais e globais, para uma agenda de proteção ambiental. A partir deste movimento, e quando a sociedade passou a reconhecer a responsabilidade, os efeitos e os impactos da atividade humana sobre a biosfera e os ecossistemas naturais, movimentos globais como o Painel Internacional para as Mudanças Climáticas (IPCC), ou mesmo legislações locais como o Código Florestal brasileiro, se viabilizaram.


Foi apenas a partir dos anos 1960 que se iniciou um movimento que, de maneira incremental, conseguiu entender o potencial e o real impacto da atividade humana no equilíbrio dos ciclos e ecossistemas naturais da Terra. Sejam eles físicos, químicos ou biológicos, afetando meios terrestres, aquáticos ou atmosféricos e exercendo pressão sobre fauna, flora ou toda a biodiversidade em diferentes biomas, tornou-se plausível avaliar o impacto humano sobre diferentes fluxos de matéria, populações e energia em escala planetária. Assim como entender a ameaça subjacente para os diferentes climas e composições da geografia natural, que, construídas ao longo de milhões de anos, definiu contextos locais, regionais e globais em que as sociedades ao redor do mundo se estabeleceram.


Trago esta referência para esta coluna, que passo a inaugurar com reflexões, perspectivas e, às vezes, um pouco de desabafo, para elucidar um fato que sempre despontará como um lembrete em meus textos: o movimento ambientalista e social no mundo, sobretudo para este contexto de alta complexidade e interdisciplinaridade entre ciências naturais, humanas, políticas e econômicas, se dá em um horizonte histórico extremamente restrito. No mundo da administração de negócios, somam-se não mais do que poucas décadas de reflexões sobre o assunto, e menos ainda para práticas consistentes em empresas e governos a ponto de reverter a trajetória em que nos colocamos desde que domesticamos plantas e animais e nos fixamos em sociedades não nômades, há mais de 10 mil anos.


Embora seja sabido que o ser humano, estabelecido como espécie Homo Sapiens, já habite os ecossistemas do mundo há pelo menos 300 mil anos, e que muito antes da Revolução Industrial já ameaçava a existência de outras espécies no planeta – sugiro aqui a leitura do livro Homo Sapiens, de Yuvan Harari, para reflexões mais profundas – é notável verificar que foi apenas nos últimos 250 anos que de fato estabelecemos um sistema supra ecológico – o sistema político-econômico atual – capaz de alterar as dinâmicas e os ciclos naturais em escala planetária, superando em muito a capacidade de recomposição dos ecossistemas – sua resiliência – mas ao mesmo tempo se tornando tão essencial para a sobrevivência da vida em sociedade, quanto os sistemas naturais em que evoluímos.


Tal fato – a invenção humana da economia e da política – e o resultado tecnológico e mercantil dessa experiência, tornou a força antropogênica equiparável às forças da natureza sob a biosfera, tais como as são o regime de mares, de correntes marítimas e atmosféricas e seus reflexos no clima, no tempo e na paisagem, assim como em potencial destrutivo, como eventos sísmicos, vulcânicos, entre outros. Não se trata de uma força de expressão ou proselitismo ambiental entender que a atividade humana, bem como a natureza, é capaz de criar novos desertos, extinções e decaimento de espécies e ecossistemas em massa, assim como possuir força suficiente para alterar toda a estrutura climática da Terra.


É importante colocar o significado dessa força antropogênica em perspectiva, e invisto tempo neste texto para elucidar alguns dos aspectos desagradáveis desnudados pela “verdade inconveniente" das mudanças climáticas. É possível observar uma correlação direta entre o crescimento da atividade econômica, o crescimento populacional e os impactos sobre o clima e demais ecossistemas ao longo da história. Não entrarei nesta coluna em dados estatísticos e históricos sobre o crescimento do PIB das nações, da população humana, das emissões de gases de efeito estufa, ou da temperatura média global desde a Revolução Industrial. A internet está repleta dessas informações e gráficos, e, hoje, uma rápida busca levará o leitor a dados dos últimos relatórios do IPCC e Fórum Econômico Mundial para constar o que vos falo.


Um olhar para as séries históricas de crescimento permitirá observar em números o que a razão e a lógica econômica já nos impôs há mais tempo do que gostaríamos de acreditar: o consumo, base que lastreia todo o crescimento econômico ambicionado pelas nações, empresas e suas pessoas, muitas vezes de maneira unidimensional - ou seja, crescimento pelo crescimento, sem considerar a qualidade deste – está atrelado ao acúmulo de riquezas e aumento do bem estar. Este, ao se basear em um valor convencionado, – aqui entra a moeda como parâmetro – adotado para remunerar o trabalho e o capital, tipificou em larga escala o acervo natural de nosso planeta como um estoque de recursos a serem transformados infinitas vezes e de infinitas formas desde que remunerando os sapiens com destreza, criatividade e ambição para fazê-lo e acumulá-lo em diferentes formas – como dito anteriormente, convencionados em moedas, ou nos dias de hoje, bits and bites.


Não me entenda mal, e se meus comentários ácidos em relação a motivações econômicas te desmotivaram de continuar, peço um voto de fé para continuar comigo aqui. Como disse anteriormente, a economia e a experiência humana já são uma força equiparável às da natureza, e não tenho a insensatez de pensar que existam palavras ou ideias simplistas capazes de frear um tsunami ou de interromper a erupção de um vulcão. Também alerto àqueles que imaginaram que apontaria neste texto para caminhos que levem a um salto à anarquia ou o retorno ao nomadismo; não caminharei por esse caminho. Muito está em jogo quando abrimos este debate e primo pelo respeito à realidade em que vivemos. Também não tenho a pretensão de apresentar soluções definitivas para os problemas apresentados. Não tenho essa petulância em mim. Mas farei meu esforço para apontar caminhos que, entendo, podem nos ajudar a colocar o ponteiro na direção correta.


Espero que entenda que me dirijo a você neste texto sobre a temática da crise ambiental que nos deparamos, mas reconheço que as falhas sociais em nossos sistemas políticos e socioeconômicos são tão ou mais profundas e complexas do que as ambientais. Não superamos ainda em nossa sociedade falhas morais essenciais para o convívio com nossa própria espécie, como aspectos relacionados à fome, ao abrigo digno, a diferenças raciais, de gênero, origem, dentre muitas outras questões. Reflexões e discussões sobre as virtudes e defeitos da dinâmica social e cultural dos povos da Terra ficarão para um outro momento.


Voltando à questão entre a economia e o meio natural, gostaria de utilizar um artifício que nos ajudará a ilustrar de maneira simples a teoria que leva à prática de um modelo já há muito tempo utilizado pelas civilizações. A água, elemento essencial para vida e abundante no planeta Terra, cujo ciclo hidrológico se repete há milhões de anos, foi responsável por forjar a existência e a evolução de todas as espécies, em cada geografia, assim como as diferentes paisagens. Este elemento é reduzido à classe de recurso hídrico pela economia, classificado de acordo com sua função e disponibilidade para uso econômico pelo homem. A água, elemento que é base constituinte de todo ser vivo, para a economia se torna um recurso, e, por fim, passa a ter valor comercial. Em seu ciclo hidrológico o elemento água é responsável por mais do que apenas dessedentar animais e plantas. A água é responsável por moldar a paisagem, transformar, transportar e abrigar diversos elementos e espécies. Reduzir seu valor às classificações de recurso hídrico subservientes aos meios econômicos é ultra simplificar as inúmeras e também reais funções do elemento água no meio em que habitamos e do qual dependemos.


Como pontuei no início deste texto, é apenas recente na trajetória política, científica e mercadológica o reconhecimento do meio ambiente natural como um agente fundamental e sensível à nossa existência. Até pouco tempo atrás não se vislumbrava a ideia de finitude dos recursos naturais fundamentais, muito menos como um risco permanente e letal para o bom funcionamento das economias ou sua prosperidade. Foi num espaço de não mais do que 60 anos, desde a publicação de Rachel Carson, que criamos agências reguladoras para o meio ambiente nas maiores economias do mundo, aprimoramos a ciência ambiental, estabelecemos referências ecotoxicológicas para substâncias químicas e desenvolvemos modelo climáticas capazes de prever impactos em níveis globais.


Temos nos munido de dados e reflexões que têm tornado cada vez mais claros os destinos que estamos escolhendo seguir. A proteção do meio ambiente já se tornou objetivo para inúmeros documentos e Constituições mundo afora, incluindo a nossa brasileira, e já temos como sociedade direcionado financiamento e iniciado longos debates. Então por que temos a sensação de receber alertas de que estamos entrando em territórios perigosos do ponto de vista existencial devido a questões ambientais?


Bem, parte se refere ao fato de que estamos falando da magnitude de uma nova força da natureza. Não serão cartas de boas intenções e um muro de arrimo que irão deter um derrame de lava. Serão necessários movimentos muito mais ambiciosos e transformações radicais em nosso modo de vida para mudar a trajetória de asteroide em rota de colisão.


Será necessário mexer nos mecanismos da máquina que estamos operando. Com um pneu furado existe apenas uma limitada distância que podemos percorrer sem muito risco confiando inteiramente no estepe. Mecanismos de mudanças incrementais nas práticas corporativas nos servem até certa medida e diversos problemas ambientais do passado conseguiram ser contornados com a adoção de novas práticas e controles. O exemplo do banimento ao uso de DDT, CFC, dentre outros elementos, nos trouxeram de volta para o jogo em problemas de poluição de solo, água e até mesmo no buraco na camada de ozônio, e em algumas dessas situações, ajudaram a estancar vazamentos identificados em nossa máquina. Contudo, essas soluções foram apenas paliativas como um estepe para continuarmos andando.


O que estamos percebendo é que dirigir com o estepe ainda está nos levando para o mesmo caminho, e, perigosamente, o movimento da máquina é o que está comprometendo o pavimento à frente. Nosso estepe não mudará fatores fundamentais da jornada.


ESG, ou ASG, no português, é o acrônimo batizado pelo mercado para comunicar sobre tudo que se aplica à ideia de uma prática empresarial pensada para o meio ambiente, para o social ou para sua correta e ética governança. É a forma com que o meio corporativo e seus atores aterrissaram mais recentemente no assunto, quando se tornou mais clara a emergência social, ambiental e moral que as forças antropogênicas têm implicado sobre sua própria existência. A economia, como arena de troca e relação entre as pessoas, evoluiu em entendimento sobre a complexa trama que viabiliza, no longo prazo, nossa própria existência e meios de viver. E o mercado por hábito, ou legado, busca por pragmatismo em seus direcionamentos.


ESG é a tentativa pragmática de se buscar uma solução. Colocar em prática métricas e medidas que internalizam valores sociais e ambientais no meio corporativo são fundamentais e dignas. Não porque resolvem, no todo, o problema, mas sobretudo, porque dão mais luz a eles. O pior dos problemas é aquele que vive nas sombras, e dar luz aos problemas foi o trabalho de cientistas, ativistas e políticos nos últimos 60 anos. Apenas por causa desse trabalho é que agora estamos podendo dar luz às potenciais soluções. Porém, ainda é necessário letramento e entendimento entre as muitas partes sobre como agir e como eliminar ruídos e dissonâncias que nos impedem de seguir.


É preciso entender o tamanho da força com que estamos lidando para não nos distrairmos com trivialidades do cotidiano, como cores de coletores de resíduos. Também é fundamental entender que alterações incrementais e soluções puramente mercadológicas e competitivas são muros de arrimo sobre uma deriva continental. Não podemos ter como objetivo operar para sempre com estepe.


Em última medida, em algum momento precisaremos nos perguntar em que jornada estamos, e em qual destino queremos chegar? Sabemos que a ausência de resposta ou as respostas que demos até agora nos levaram a superaquecer a máquina. Estamos apenas discutindo soluções para os problemas que nós mesmos criamos. Se as respostas que temos dado a essas perguntas inconvenientes foi o que nos trouxe até aqui, precisamos passar por uma revisão coletiva sobre o que queremos buscar como sociedade, e incluir essa nova resposta como elemento central da solução. E este não é um exercício filosófico para posteridade. Esta é uma indagação para a primavera passada.


Não imagino músicas harmoniosas na construção desse novo modelo para seguir em frente, mas sei que devemos estar dispostos a passar por algumas primaveras ruidosas se pretendemos chegar do outro lado melhor do que entramos.


*Daniel Poli possui mais de 10 anos de experiência em Sustentabilidade, Mudanças Climáticas, Gestão de Riscos e Planejamento Estratégico. Realizou projetos em múltiplos setores da econômica, tais como o Financeiro, Minas e Energia, Varejo, Logística, entre outros. Atuou em múltiplas geografias nas Américas, Europa e Ásia. Passou por companhias como EY e Nexa Resources, e atualmente conduz a estratégia de sustentabilidade da Cielo. É formado em Engenharia Ambiental, Engenharia Civil e mestrando em Empreendedorismo.


**O texto não reflete necessariamente as opiniões do Economeaning.